Bruno Huberman avalia que a constituição desse bloco militar islâmico é um desdobramento do 7 de outubro. Apesar de formada por aliados dos EUA, como Turquia e Arábia Saudita, a aliança não apresenta o Irã como a grande ameaça da região.
“Importante colocar que esse novo bloco ele não é anti-Irã. Não busca subjugar a República Islâmica do Irã e não têm no Eixo da Resistência [grupo de atores contrários à política dos EUA na região] a principal ameaça a estabilidade do Oriente Médio. Isso é uma mudança importante”, acrescentou.
A professora de relações internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) Isabela Agostinelli afirmou que as guerras após o 7 de outubro estão interligadas ao ataque do Hamas, que serviu para recolocar a questão palestina no centro da disputa regional.
“Depois do 7 de outubro, a questão palestina é recolocada no centro novamente a ponto de a Arábia Saudita, que estava na iminência de normalizar as relações com Israel, dizer que não há qualquer acordo possível sem uma solução para a questão palestina”, destacou.
Para Isabela Agostinelli, Israel usou o 7 de outubro para expandir a guerra de Gaza para a Cisjordânia. Bem como, o Líbano e o Irã com objetivo de transformar a ordem regional a seu favor.
“Há um objetivo ali de basear essa ordem na desordem, no caos regional, em guerras intermináveis, que são muito lucrativas para a indústria de armas e de tecnologia que em Israel é muito forte”, disse.
Na avaliação da pesquisadora, por trás dessa agenda está o projeto da Grande Israel, uma proposta que existe desde o início do movimento sionista, que deu origem ao Estado de Israel. Desse modo, prevê a expansão do país do Rio Nilo ao Rio Eufrates, tomando partes do Egito, do Iraque, da Jordânia, do Líbano e da Arábia Saudita.
Divisão no Golfo
Outro desdobramento do 7 de outubro teria sido a fissura na unidade que existia entre os países do Golfo. Inclusive, reunidos no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Este formado por Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Arábia Saudita.
“Omã se aproximou do Irã, e os demais países do Golfo estão meio desordenados, sem saber se ficam mais do lado dos Emirados. Ou então, do lado da Arábia Saudita”, ponderou Bruno Huberman.
Para o especialista do Observatório de Conflitos do Oriente Médio, o 7 de outubro de 2023 foi o acontecimento que deu início a essa reorganização dos blocos de poder no Oriente Médio por meio de uma sucessão de conflitos.
“Hoje em dia são três blocos, não mais dois. Tem os ultra-aliados dos americanos, que são Israel e Emirados, principalmente. E você vai ter esse bloco intermediário, que são a Arábia Saudita, Paquistão e Turquia. Sendo assim, buscam a política de não alinhamento entre EUA, China e Rússia”, comentou.
Eixo da Resistência enfraquecido
Coordenador do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais (Geci) da PUC-SP, Bruno Huberman acrescentou que o 7 de outubro levou ao enfraquecimento do Eixo da Resistência, que é o grupo de atores que fazem oposição à política de Israel e dos EUA na região.
Apresentado como terceiro bloco regional de poder hoje na região, o Eixo da Resistência teria perdido força. Entre outros motivos, pela queda da Assad na Síria e o enfraquecimento do Hezbollah, no Líbano.
“Só tem o Irã como uma força estatal e as demais forças não estatais estão muito enfraquecidas, particularmente o Hamas”, disse.
Especialistas em Oriente Médio têm sustentado que o ataque do Hamas em 7 de outubro foi uma resposta do Eixo da Resistência aos chamados Acordos de Abraão.
Costurados por Israel e EUA para normalizar as relações dos países árabes com Tel Aviv, esses acordos buscam afastar a exigência árabe por mudanças na situação dos palestinos.
O professor Huberman destaca que um acordo entre Israel e Arábia Saudita poderia consolidar o Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC), anunciado em 9 de setembro de 2023, um mês antes do ataque do Hamas.
“Esse corredor logístico ligaria a Índia, Emirados, Arábia Saudita, Israel e Grécia. Ou seja, para a Europa deixar de depender da energia russa e das mercadorias chinesas, se aproximando da energia árabe e das mercadorias indianas. O 7 de outubro se localiza nisso”, ponderou.
Por outro lado, Huberman acrescenta que também contribuiu para decisão do Hamas de atacar Israel. O avanço da colonização israelense da Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Isto é, territórios palestinos segundo o direito internacional.
“Foi uma resposta aos 70 anos de ocupação, 100 anos de colonização e do atual governo Netanyahu. Aliás, já vinha numa escalada agressiva desde a sua posse”, ponderou.
Fonte: agênciabrasil