Agronegócio continua entre as forças políticas mais organizadas
O resultado das eleições legislativas mostra que o agronegócio continua entre as forças políticas mais organizadas do Congresso e chega a 2027 com capacidade para influenciar a agenda do próximo governo.
A FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) reunia cerca de 355 parlamentares antes da eleição e chegou às urnas com mais de 75% de seus integrantes disputando a reeleição. O resultado deste domingo preservou uma parcela importante desse núcleo na Câmara e ampliou a presença de nomes ligados ao agro no Senado. A composição definitiva da FPA para a próxima legislatura, porém, ainda será formada. O número, de todo modo, não significa que todos votem juntos. A força da FPA está na capacidade de reunir parlamentares de diferentes partidos em torno de pautas específicas.
E as urnas preservaram esse núcleo político na Câmara, ao mesmo tempo em que levaram para o Senado nomes com forte trajetória no setor.
No Senado, mudanças maiores
Duas das três cadeiras de cada estado estavam em disputa, o que tornou o resultado especialmente relevante para a composição do Senado a partir de 2027. O agro perde alguns nomes experientes, mas também leva para a Casa uma nova geração de parlamentares com trajetória na Câmara, no Executivo e na produção rural.
Entre as perdas está Carlos Fávaro, que encerra o mandato por Mato Grosso. No estado, ele e Jayme Campos deixam a Casa, enquanto Wellington Fagundes permanece até 2031. Em seu lugar entram Mauro Mendes, ex-governador de Mato Grosso, e Zé Medeiros, que já foi senador e retorna agora eleito. Mendes chega ao Congresso pela primeira vez depois de dois mandatos à frente de um dos principais estados produtores do país; Medeiros leva para o Senado uma atuação concentrada em infraestrutura, segurança jurídica e questões que afetam diretamente a produção.
Tereza Cristina
Em Mato Grosso do Sul, a mudança não tira Tereza Cristina do Senado. A ex-ministra da Agricultura tem mandato até 2031 e continuará sendo uma das principais referências do agro na Casa. Ao lado dela, porém, estarão dois novos senadores: Reinaldo Azambuja, produtor agropecuário e ex-governador do estado, e Capitão Contar.
No Espírito Santo, Evair de Melo foi eleito senador. Na Câmara, ele construiu uma atuação ligada a seguro rural, cooperativismo e produção e agora leva essa experiência para o Senado.
No Tocantins, Eduardo Gomes foi reeleito, enquanto Alexandre Guimarães, deputado federal e produtor agropecuário, ganhou a outra vaga. É mais um caso de um parlamentar da Câmara com atuação ligada à produção e ao desenvolvimento regional que muda de Casa.
No Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze deixa o Senado, enquanto Hamilton Mourão permanece até 2031. As duas vagas em disputa ficaram com os deputados Sanderson e Marcel van Hattem. O resultado muda o perfil político da bancada gaúcha, mas não deve ser tratado automaticamente como ampliação da representação do agro, já que os dois novos senadores não têm a mesma trajetória setorial de Heinze.
No conjunto, portanto, o Senado terá uma combinação de nomes tradicionais do agro, como Tereza Cristina e Wellington Fagundes, com novos parlamentares vindos da Câmara e do Executivo. São políticos com experiência em gestão pública, infraestrutura, regularização fundiária e negociação legislativa, justamente áreas que estarão no centro da agenda do agro nos próximos anos.
Na Câmara, núcleo agro permanece forte
A nova bancada do Paraná mantém nomes como Pedro Lupion. Lupion, presidente da FPA, transformou a frente em uma estrutura de articulação que vai além das pautas agrícolas. A bancada passou a participar também das disputas pelo comando da Câmara e pela formação das maiorias.
Isso é decisivo porque poder no Congresso não está apenas no voto de plenário. Está em quem preside uma comissão, quem relata um projeto e quem consegue alterar o texto antes de ele chegar à votação.
E a atuação do agro já extrapolou a Comissão de Agricultura. Parlamentares ligados ao setor ocuparam espaços em áreas como Minas e Energia e infraestrutura — fundamentais para um segmento dependente de combustível, energia, fertilizantes, ferrovias, rodovias e portos.
Força do agro nos partidos
E não são nomes soltos que fazem a força da bancada ruralista, alguns partidos políticos se consolidaram como representantes do setor. PL, PP, União Progressista, Republicanos e PSD concentram boa parte dos parlamentares da bancada.
O PL deve representar um núcleo mais ideológico e de oposição, especialmente em temas como propriedade, segurança no campo e legislação ambiental.
Já PP e União Progressista têm peso para além da oposição ou do governo. São partidos com grande presença no Congresso e tradicionalmente importantes na construção de maiorias. Se o próximo presidente não tiver uma base parlamentar própria, terá de negociar com essas siglas — e, dentro delas, com parlamentares fortemente ligados ao agronegócio.
O Republicanos também ganha relevância com nomes como Evair de Melo, enquanto o PSD mantém parlamentares importantes na pauta agrícola.
Isso cria uma situação em que o agro pode influenciar o governo mesmo que o governo não seja politicamente identificado com o setor.
A primeira disputa será de orçamento
O primeiro grande teste deve ser o orçamento. Plano Safra, seguro rural, crédito, renegociação de dívidas, infraestrutura e defesa agropecuária dependem de dinheiro público e, portanto, de negociação política.
A experiência de 2026 já mostrou a força dessa disputa. Na renegociação das dívidas rurais, a FPA pressionou por mudanças no desenho defendido pelo governo e levou o tema para o centro da agenda do Congresso. Em 2027, uma bancada forte poderá fazer o mesmo com outras pautas.
A força do agro também terá impacto direto sobre a agenda ambiental. Marco temporal, licenciamento, regularização fundiária, defensivos e regras de produção continuarão sendo temas de conflito no Congresso. E a discussão ganhou uma dimensão comercial: exigências ambientais e de rastreabilidade já afetam o acesso do produto brasileiro a mercados internacionais.
Nesse cenário, uma bancada ruralista forte não significa que toda pauta ambiental será aprovada ou rejeitada. Significa que o setor terá mais capacidade para disputar o desenho das regras.
O próximo presidente terá de negociar com a FPA, mas também com os partidos que levam a agenda do agro para dentro das coalizões de governo.
Fonte: cnn


