El Niño é fator de risco para mercado agrícola
A probabilidade crescente de formação de um novo episódio de El Niño no segundo semestre de 2026 — estimada em torno de 60% nas principais projeções internacionais — já começa a ser incorporada pelo mercado agrícola como um fator relevante de risco. Mais do que a ocorrência do fenômeno, o foco se desloca para sua intensidade e para a distribuição espacial dos impactos, variáveis que determinam a dimensão do choque sobre produção, preços e fluxo de exportações.
O padrão clássico do El Niño tende a redistribuir o regime de chuvas no Brasil de forma assimétrica. No Sul, o aumento da precipitação pode favorecer culturas de inverno e parte da safra de verão, elevando o potencial produtivo de grãos como soja e milho. Esse ganho, no entanto, não é linear: excesso de chuva pode comprometer operações no campo, reduzir qualidade e pressionar custos logísticos.
Centro-Oeste
No Centro-Oeste, os efeitos do El Niño tendem a se manifestar mais pelo deslocamento e irregularidade do regime de chuvas do que por um sinal uniforme de seca ou excesso. O início da estação chuvosa pode atrasar, com precipitações mais espaçadas e mal distribuídas em setembro e outubro, o que compromete a umidade do solo no momento crítico do plantio da soja. Em alguns casos, há também maior frequência de veranicos — períodos curtos de estiagem dentro da estação chuvosa — que afetam o desenvolvimento inicial das lavouras.
Se o plantio é empurrado para novembro, a colheita se desloca e reduz a janela ideal do milho de segunda safra, aumentando o risco de pegar um período mais seco e quente no fim do ciclo. Além disso, temperaturas mais elevadas associadas ao fenômeno podem elevar a evapotranspiração e o estresse hídrico das culturas. O resultado é um cenário de maior volatilidade produtiva, em que pequenas mudanças no calendário climático têm impacto desproporcional sobre produtividade e custos.
Norte e no Nordeste
Já no Norte e no Nordeste, o sinal predominante tende a ser de déficit hídrico. A redução das chuvas afeta diretamente culturas como milho, bem como feijão e mandioca, além de pressionar a pecuária por meio da degradação de pastagens. Em regiões mais vulneráveis, o impacto pode se traduzir em quebra de safra, com efeitos sobre renda, oferta de alimentos e dinâmica regional de preços.
O efeito climático se amplifica no mercado global. Em primeiro lugar, episódios mais intensos de El Niño geram disrupções simultâneas. Isso ocorre em múltiplos polos produtores. Dessa forma, eleva a volatilidade e os prêmios de risco em commodities agrícolas.
Esse ambiente tende a sustentar preços internacionais. Por exemplo, de grãos e alimentos básicos. Além disso, gera reflexos diretos para países exportadores como o Brasil.
A transmissão para os preços domésticos ocorre por múltiplos canais. Em especial, a combinação de menor oferta regional pressiona alimentos. Enquanto isso, custos logísticos mais elevados agravam a situação, bem como a valorização internacional das commodities no atacado e varejo.
Por outro lado, em um cenário de choques climáticos sobre energia, o impacto cresce. Nesse sentido, sobre o IPCA deixa de ser marginal. Afinal, passa a integrar o radar central de risco inflacionário.
Investimento no campo
A maior incerteza também reorienta decisões de investimento no campo. Produtores tendem a ampliar o uso de seguros agrícolas. Além disso, ajustam o mix de culturas. Dessa forma, aceleram a adoção de tecnologias de mitigação de risco. Por exemplo, sementes mais resilientes, bem como sistemas de irrigação. O resultado é uma recomposição de custos e margens ao longo do ciclo produtivo.
O ponto crítico permanece na intensidade do fenômeno. Um El Niño moderado tende a gerar efeitos parcialmente compensatórios entre regiões. Já um evento mais forte pode produzir perdas disseminadas, pressionar cadeias produtivas e ampliar o repasse para preços.
Por fim, entre maio e junho, com a consolidação das projeções climáticas, o mercado deve recalibrar as expectativas para a safra 2026/27. Até lá, o El Niño deixa de ser apenas uma variável climática e passa a atuar como vetor de reprecificação de risco — no campo, nos preços e nos mercados globais.
Fonte: cnn



