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Fala aparece quando uma palmada é tratada como algo diferente de violência, e uma forma aceitável de corrigir ou impor limites pelos pais - Foto: Unicef/Divulgação

Pais não veem palmada como violência, aponta estudo do Unicef

A maioria das mães e dos pais entrevistados enxergam a palmada como a melhor forma de corrigir um comportamento inadequado

“Foi só uma palmada inofensiva” tem sido uma frase frequente para justificar o uso do castigo físico leve na educação de crianças. A fala aparece quando uma palmada é tratada como algo diferente de violência, a partir da ideia de que uma agressão “leve” pode ser uma forma aceitável de corrigir ou impor limites pelos pais.

Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado nesta quinta-feira (24), mostra que essa separação que muita gente faz, às vezes sem perceber, ajuda a explicar por que o castigo corporal não só persiste no Brasil, mas continua sendo uma prática presente na criação de crianças.

Mesmo depois de anos de campanhas e de uma legislação que proíbe seu uso, a maioria das mães e dos pais entrevistados enxergam a palmada como a melhor forma de corrigir um comportamento inadequado. Nas conversas, a dúvida raramente era se bater ou não, mas sim até onde poderiam ir. A palmada entrava na conta do “leve”, diferente do que os participantes consideravam violência de verdade.

Na lei, a diferença entre palmada e violência não existe. Desde 2014, a Lei Menino Bernardo (Lei 13.010/2014) garante a crianças e adolescentes o direito de serem educados sem castigo físico. O próprio estudo define castigo corporal como qualquer punição que use a força para causar dor ou desconforto, por mais “leve” que pareça.

A prática é bem mais comum do que se imagina. Uma pesquisa do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) com a Quaest, divulgada em 2026, mostra o tamanho do descompasso: 91% dos cuidadores dizem que o diálogo é a melhor forma de corrigir um comportamento infantil, mas 49% admitem já ter dado tapas, 62% já ter gritado e 27% já ter batido com algum objeto.

Segundo o estudo, o que leva pais e mães a bater nos filhos?

Por ser uma pesquisa qualitativa — realizada entre 2024 e 2026, com 214 pessoas do Rio de Janeiro, Manaus e Recife —, o estudo não permite estimar quantos pais ou cuidadores brasileiros recorrem ao castigo corporal. Contudo, ele ajuda a entender as crenças, normas sociais e dificuldades que podem contribuir para a persistência da prática.

O ponto de partida é justamente uma crença na “correção”, mas não é o único fator. Como a maioria dos locais estudados é afetada pela violência armada, a rigidez com os filhos nessas comunidades é vista como uma forma de proteção. A ideia é evitar que as crianças virem vítimas ou se envolvam com o crime organizado.

Cansaço e sobrecarga de tarefas também pesam quando se trata de lidar com comportamentos desafiadores das crianças. Como a maior parte dessas responsabilidades recai sobre as mães, situações de exaustão podem tornar mais difícil evitar respostas como tapas, beliscões e gritos.

Não por acaso, afirmam os participantes, a agressão costuma surgir em momentos de cansaço, estresse e perda momentânea do controle. Há ainda a crença de que filho é assunto de família: vizinhos, amigos e até parentes evitam intervir, uns por medo de retaliação, outros por acreditarem que “cada família cria seus filhos do seu jeito” — e o cuidador acaba sozinho justamente quando mais precisaria de alguém por perto.

Para Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, “nosso estudo mostrou que o castigo corporal persiste em nossa cultura não apenas pela escolha de um pai, mãe ou cuidador, mas porque muitos ainda acreditam que bater é uma forma legítima de educar, disciplinar e corrigir”, disse em comunicado oficial.

Por que é tão difícil criar sem bater?