A expansão da IA e os debates na ONU
Com a expansão da IA e os debates na ONU, a inteligência artificial reafirma que, da pólvora à tecnologia, as inovações sempre estiveram associadas ao poder. Durante séculos, dominar determinadas ferramentas significou ampliar a capacidade de conquistar territórios, proteger fronteiras e impor interesses. A pólvora transformou profundamente a guerra; as grandes navegações moldaram a economia global; a máquina a vapor ajudou a impulsionar a industrialização; e a eletricidade e as telecomunicações redefiniram a velocidade com que Estados e empresas conseguiam produzir, comunicar e exercer influência.
E o mundo que vivemos hoje só é o mundo que vivemos hoje por causa desse histórico. Para o bem e para o mal.
com a revolução digital, essa relação ganhou uma nova dimensão. Além disso, computadores, internet, satélites, semicondutores e grandes plataformas digitais se tornaram ativos estratégicos.
Nesse sentido, quem ocupa posições centrais nesse ecossistema não precisa controlar um território para exercer influência direta. Por fim, essa influência está traduzida nos fluxos de dados, comunicação e dinheiro que atravessam fronteiras.
Tudo isso afeta diretamente a economia e a vida cotidiana de bilhões de pessoas.
A inteligência artificial leva essa lógica adiante. A corrida atual não envolve apenas quem consegue criar o chatbot mais sofisticado. Envolve chips, energia, centros de dados, capacidade computacional, talentos, modelos e dados. No fundo, coloca empresas e governos diante de uma pergunta antiga com uma tecnologia nova: quem terá acesso às ferramentas mais poderosas e, principalmente, quem terá condições de definir como elas serão usadas?
Dadas as devidas proporções, as mesmas perguntas eram feitas sobre a tecnologia nuclear. Não por coincidência, há quem defenda uma cooperação para as IAs nos moldes do Tratado de Não Proliferação Nuclear.
22 de setembro de 2026, Nova York
Chegamos à semana da Assembleia Geral da ONU. Além disso, a cada edição, me parece que há mais motivos para tensão.
Nesse sentido, o encontro ocorre em meio a grandes guerras no Irã, Gaza, Ucrânia, Sudão, Congo e Mianmar. Igualmente, também estamos no auge das mudanças climáticas. Por um lado, isso ocorre até agora. Por outro lado, sabemos que, neste particular, o amanhã tende a ser sempre pior.
Finalmente, na economia, há impactos de eventos climáticos extremos e das guerras. Consequentemente, bloqueios a rotas de navegação e cadeia de suprimentos elevam o custo de vida e freiam o crescimento.
E a tecnologia terá um capítulo à parte em 2026 – graças à inteligência artificial. Ou melhor: graças aos interesses por trás das IAs. Em última instância, ainda falamos de humanos e não de máquinas.
Como qualquer tecnologia, as IAs podem fazer o bem e o mal. Essa discussão está superada. O ponto é outro.
IA: batalha de narrativas no palco da ONU
Começo com uma breve linha do tempo.
Entre abril e julho, falhas de segurança fizeram com que modelos de IA escapassem de ambientes de teste e atacassem servidores. No início de setembro, cientistas fizeram novos alertas sobre os riscos da tecnologia, com pesquisadores chegando a pedir demissão. Em 12 de setembro, o debate chegou aos líderes da indústria: parte dos CEOs passou a defender um freio no avanço da IA, enquanto outros discordaram da proposta.
E ainda mais recentemente, na última semana, a discussão ganhou dimensão global, com a ONU cobrando regulamentação e Estados Unidos e China divergindo sobre como lidar com a tecnologia.
Aqui vai uma descrição mais detalhada dos fatos:
- O CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um artigo no dia 12 de setembro admitindo que o desenvolvimento de modelos de IA está rápido demais por conta do “autoaperfeiçoamento recursivo”, ou seja, sistemas de IA impulsionando cada vez mais o próprio desenvolvimento. Por isso, o executivo propôs a desaceleração coordenada entre empresas do setor.
- Nos dias seguintes, os CEOs Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da SpaceXAI, e o ex-CEO do Google DeepMind Demis Hassabis concordaram com o artigo assinado por Amodei.
- Numa postagem no X, Altman argumentou que desacelerar não significa parar, mas arcar com os custos de auditorias e testes de segurança. O objetivo seria evitar que a capacidade dos modelos supere seu alinhamento.
OpenAI não vai estrear na Bolsa de Valores
- Ainda, em entrevista à revista Fortune, Altman disse ainda que a OpenAI não vai estrear na Bolsa de Valores em 2026. O motivo principal para segurar a oferta pública de ações é a preocupação com a segurança e com os riscos das tecnologias de inteligência artificial.
- Os CEOs Mark Zuckerberg, da Meta, e Jensen Huang, da Nvidia, se posicionaram contra a desaceleração coordenada. Zuckerberg afirmou que os laboratórios já têm incentivos financeiros e jurídicos de sobra para construir IAs seguras por conta própria. E Huang declarou que segurança é um problema de engenharia e que as leis existentes já cobrem a confiabilidade dos produtos.
- O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou os possíveis riscos puxados pela IA. E defendeu que os EUA mantenham a liderança sobre a China. Para a administração do republicano, manter a liderança tecnológica é uma questão de segurança nacional.
- Pequim respondeu ao artigo do CEO da Anthropic de maneira contundente. Por meio de um editorial do jornal estatal Global Times, o país asiático disse que a intenção por trás do ensaio de Amodei seria criar um “manual da Guerra Fria” voltado a conter o avanço chinês e preservar a hegemonia tecnológica americana.
Excluir a China da inovação global em IA
- No texto, o veículo de comunicação chinês ainda classificou a postura dos executivos americanos como “hipócrita e míope”, argumentando que excluir a China da inovação global em IA aumentaria os riscos de perda de controle sobre a própria tecnologia.
- A rejeição à desaceleração não significa, no entanto, que o governo chinês ignore os riscos da IA. Chen Yixin, ministro da Segurança, afirmou que o país precisa acelerar a criação de um sistema para prevenir e controlar problemas de segurança relacionados à tecnologia. Ele também defendeu uma ampla cooperação internacional e classificou a IA como um novo campo de rivalidade estratégica.
O Conselho de Segurança da ONU adicionou uma reunião de alto nível sobre inteligência artificial à agenda de quarta-feira, um sinal da crescente preocupação e da necessidade de abordar o assunto.
O que a ONU pensa sobre as IAs?
Em 14 de setembro, o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, publicou uma carta aberta advertindo que a autorregulação voluntária é “extremamente insuficiente”. E que a corrida descontrolada por IAs autônomas gera riscos existenciais diretos aos direitos humanos.
No texto, Türk defende que nenhum país pode governar essa tecnologia sozinho e que nenhuma empresa tem o direito de decidir isoladamente os riscos que a sociedade deve aceitar.
Quem também falou foi o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que alertou: riscos associados ao rápido avanço das IAs não podem ser ignorados.
“Para a ONU, a melhor maneira de lidar com os riscos globais da IA é reunir os países para adotar princípios e compromissos compartilhados sobre a governança da IA” – diz um comunicado das Nações Unidas.
A ONU trabalha para criar um fórum onde os países possam desenvolver um entendimento comum sobre as tecnologias de IA e discutir como podem cooperar e regular questões como segurança, direitos humanos e disparidades de acesso.
Comparando o desenvolvimento da IA à corrida armamentista da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética, Guterres apelou à cooperação entre os países na vanguarda da IA – incluindo os EUA e a China – para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia enquanto os riscos continuam a ser avaliados:
“Os países que têm maior capacidade nas fronteiras da IA – penso que deveriam estabelecer mecanismos de contato, trocar informações e criar algumas diretrizes comuns para evitar uma corrida desenfreada que um dia poderá levar a um desastre gigantesco a nível global”.
O segundo mandato de cinco anos do secretário-geral António Guterres termina em 31 de dezembro – e a sucessão continua uma incógnita.
Líderes mundiais na ONU
Por tradição, o Brasil é o primeiro país a discursar na tribuna da Assembleia Geral, seguido pelos Estados Unidos, anfitrião da sede das Nações Unidas.
Ou seja, teremos Lula e Trump na sequência.
O presidente da China, Xi Jinping, deve enviar um representante em seu lugar. Contudo, ele participará na quarta-feira de um jantar com Donald Trump em Washington.
Entre os convidados estão alguns dos nomes mais conhecidos do setor de tecnologia, como Jeff Bezos, Elon Musk e Sam Altman. Jensen Huang, CEO da Nvidia; Sundar Pichai, CEO do Google; Michael Dell; e Jane Fraser, CEO do Citigroup, também foram chamados. Tim Cook, que deixou o cargo de CEO da Apple, também garantiu um lugar no jantar.




