Carro elétrico dá mais enjoo?
O motorista do carro elétrico acelera, dispara em silêncio absoluto e, três quadras depois, o passageiro de trás está com o estômago ‘embrulhado’, sinalizando que o carro elétrico deu enjoo. É uma cena cada vez mais comum, e que vem repercutindo em redes sociais e fóruns.
Afinal, é verdade que o carro elétrico pode dar enjoo? A resposta curta é sim, para parte das pessoas e em certas condições. A explicação longa é mais interessante: a culpa não é da eletrificação em si, e o efeito tende a diminuir com o tempo.
A dúvida ganhou volume por um motivo simples: nunca houve tantos elétricos rodando. Os modelos a bateria e híbridos plug-in dispararam nas vendas de carros novos no Brasil nos últimos anos. Com tanta gente estreando no elétrico, o desconforto virou objeto de pesquisa e dúvidas.
O cérebro ficou sem suas pistas
A explicação para o enjoo nos EVs começa na teoria do conflito sensorial, formulada pelo psicólogo britânico James Reason nos anos 1970 e ainda hoje o modelo mais aceito. Segundo a tese, o corpo detecta movimento por três vias: ouvido interno, visão e os proprioceptores de músculos e articulações. Quando esses canais contam histórias diferentes, o cérebro aciona o centro do vômito, como uma espécie de alarme neurológico.
Um motor a combustão é, sem que ninguém perceba, um sistema de informação: rotação subindo, vibração, troca de marcha, ruído de escapamento. São avisos que o cérebro aprendeu a ler por mais de um século para prever o que vem na sequência em termos de movimento — e algo que motores elétricos praticamente não têm.
Cérebro perde precisão
William Emond, pesquisador da Université de Technologie de Belfort-Montbéliard, na França, explica no seu trabalho que o carro elétrico é um ambiente novo, no qual o cérebro perde precisão ao estimar as forças em jogo porque se apoia na experiência de outros carros. É o mesmo cenário de falta de referências, diz ele, que deixa quase todo mundo mareado em gravidade zero.
A hipótese tem respaldo experimental: em 2020, na Applied Ergonomics, a equipe de Ouren Kuiper mostrou que voluntários avisados por um som um segundo antes de cada movimento do carro elétrico passavam menos mal. Com avisos falados, a queda nos sintomas chegou a 17%.
Um outro vilão dos estômagos nos elétricos é a frenagem regenerativa. Ao recuperar energia quando o motorista alivia o acelerador, o elétrico desacelera sozinho, de forma prolongada e em baixa frequência, de modo pouco parecido com a pisada no freio tradicional, mecânico, que o corpo espera.
Pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong (Guangzhou) levaram 16 voluntários propensos a enjoo para rodar em via real: no nível alto de regeneração, a proporção com sintomas foi a maior.
Há ainda um fator que só o elétrico entrega: o torque instantâneo, disponível desde a partida e sem trocas de marcha. O que incomoda não é a aceleração em si, mas a velocidade com que ela muda. Monica Jones, do Instituto de Pesquisa em Transportes da Universidade de Michigan, mediu o jerk, a taxa de variação da aceleração, e viu que os voluntários eram muito sensíveis a ele: quanto maior a magnitude, mais cedo vinham os sintomas.
Quem passa mal e o que já existe contra isso
A cinetose atinge cerca de 13% dos adultos sadios, dispara entre crianças de 6 a 12 anos, com pico dos 9 aos 10, e é maior entre mulheres. A posição pesa: em pesquisa internacional com 4.479 pessoas em cinco países, Brasil incluído, a incidência foi de 36,7% no banco da frente e de 17,2% entre quem dirige. No banco de trás é onde mais se passa ainda pior, justamente pelo menor referencial do que o motorista está prestes a fazer.
As soluções dos especialistas para aliviar a náusea incluem diferentes estratégias. Cientistas testaram intervenções na Universidade de Nagoya, no Japão. Nesse sentido, um minuto de exposição a um tom puro de 100 Hz aliviou enjoo e tontura. Afinal, esse som é similar a um zumbido grave. Por causa disso, o estímulo atuou diretamente nos órgãos otolíticos do ouvido interno.
Paralelamente, a Universidade de Michigan desenvolveu o sistema PREACT. Desta forma, a tecnologia inclina o assento ou vibra para avisar sobre curvas e frenagens. Consequentemente, o mecanismo cortou os sintomas quase pela metade, ainda que seja um recurso complexo.
Estratégias do dia a dia
Enquanto isso, as estratégias que funcionam no dia a dia continuam simples. Por exemplo, você pode reduzir o nível de regeneração de frenagem no menu do carro. Além disso, vale a pena sentar na frente e olhar o horizonte em vez do celular. Por fim, lembre-se de ventilar o veículo, já que a má qualidade do ar aparece entre os agravantes. E dar tempo ao cérebro: a chamada habituação, que custa poucas viagens.
A indústria de tecnologia também entrou na briga. No iOS 18, a Apple criou o Vehicle Motion Cues, recurso de acessibilidade que usa os sensores do iPhone para desenhar pontos animados nas bordas da tela, em sentido contrário ao movimento do carro. No Android, o Google começou a distribuir em agosto o Motion Assist, equivalente que estreia nos aparelhos Pixel. Ambos prometem reduzir os sintomas para quem, apesar de tudo, insiste em ler a bordo de um carro elétrico.
Fonte: Uol



